Devaneios

14907650_1856358514601163_4147884105904882443_nESTOU PERDENDO A MEMÓRIA das coisas. Não lhes digo isso para que tenham pena de mim. Só repito, insistentemente, a fim de lembrar a mim mesma de que estou me esquecendo.

Na cabeça de uma velha, a memória é uma criança levada que está sempre a pregar peças.

Outro dia, veio aqui no hospital me visitar uma de minhas filhas. Como eu estava com os olhos fechados, por causa da claridade da janela que fica à frente da minha cama, apenas ouvi sua voz e a confundi com minha neta.

Sei que, para as pessoas, isso é triste quando acontece, mas não faço de propósito. A memória, na cabeça de uma velha, vive a dar voltas em círculo feito roda-gigante. O espaço que tenho na cabeça para lembrar das coisas novas é ridiculamente menor do que das antigas. Parece que todo o meu passado vive em um palácio gigante, enquanto meu presente mora num casebre tão apertado quanto esta cama do hospital.

Dos meus pais e avós, lembro-me bem até das rugas em seu rostos, das coisas que gostavam ou desgostavam, dos apelidos que davam aos vizinhos. Agora, dessa moça nova que vem pentear meu cabelo todas as manhãs, mal consigo recordar o nome. Acho que é Juliana. Não, não, espera um pouco. Juliana é minha neta. Essa moça nova, que corta minhas unhas e delicadamente coça minhas costas, que eu já não consigo mais alcançar com os dedos por causa da artrite, é a enfermeira-chefe do hospital em que estou internada. Continuar lendo

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Vazio

img_como_detectar_a_sindrome_do_ninho_vazio_8154_origFEZ DEZESSEIS ANOS QUE você se foi, dezesseis anos em que não posso mais escutar sua voz, mesmo que eu pense e fale com você o tempo todo. Sim, sinto sua falta todos os dias, e queria muito dividir contigo minhas mais triviais conquistas cotidianas.

Você é parte do que eu sou hoje. Se bom ou mau, não me importa, você é a pessoa para quem eu mais gostaria de contar as coisas que vivi nesses dezesseis anos. Em todo este tempo, não vi mais o seu rosto, embora basta que eu cerre meus olhos para lembrar dos teus, fixos em mim.

Você tinha um olhar que dizia mais do que qualquer palavra. Eu trocaria dezesseis anos para ter só uma hora contigo de novo. Abriria mão de qualquer conquista, só para contar uma derrota minha para você de novo. Para ouvi-lo mais uma vez, só mais uma vez.

Que Deus entenda a falta que eu sinto de você. E que com o mesmo amor que você teve por mim, Ele permita que um dia eu te veja de novo. Só mais uma vez. 

 

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Conspiração e Poder (filme)

images“O jornalismo não se baseia na afirmação, mas na verificação” (Andrew Heyward)

AOS MEUS COLEGAS JORNALISTAS e a quem mais se interessar por cinema e jornalismo: achei este novo filme “Conspiração e Poder” (Truth) bem melhor que o queridinho campeão do Oscar “Spotlight”.

Não só porque Cate Blanchett e Robert Redford estão incríveis nos papéis de produtora executiva e âncora, respectivamente, mas, principalmente, porque se baseia em algo que Spotlight não fez questão de mostrar: a imprensa também pode errar.

Enquanto Spotlight endeusou os jornalistas que tiveram um grande acerto, Truth expôs os jornalistas que erraram.

E como dizia o enxadrista cubano José Capablanca: de poucas partidas aprendi tanto, como da maioria de minhas derrotas.

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A cor do logo

downloadENCOMENDEI UM LOGOTIPO PARA um renomado designer do mercado. Após longas reuniões, apresentou-me um novíssimo estudo do que seria o diferencial publicitário do projeto.

Eu estava em dúvida das cores, e o designer recomendou: “vermelho nem pensar, não é o momento desta cor. Azul também não rola, pois não está numa fase boa na sociedade. Acho que lhe sobram poucas opções disponíveis”.

Optei pelo preto e branco, assim quase sem graça, cinzento mesmo, como quase tudo se transformou até então.

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Uber Pool

13166023_974290672684911_2292065692607494991_nPRIMEIRA VEZ QUE PEGO um ‪#‎UberPool‬ (corrida compartilhada com outros usuários Uber no mesmo trajeto).

Estou me sentindo dentro do filme do Jafar Panahi, Táxi Teerã, só à espera dos passageiros loucos embarcarem.

No filme, o diretor iraniano é um taxista, filmando tudo que acontece no interior do seu veículo. E os passageiros são dos mais diversos: uma professora, um assaltante, um vendedor de filmes piratas, senhoras loucas que carregam um peixe, entre outros.

A minha corrida foi normal, sem cenas de filme, mas fica a dica para assistirem mais uma boa obra de Panahi.

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Bem-vindo, Pug!

11390116_791082291005751_5495342069391586987_nCHEGOU HOJE EM CASA o pequeno canino Fiódor Doistoiévski, nascido em 1º de abril deste, teimoso, carinhoso e influenciador inteligente da família.

Deixou Os Irmãozinhos Karamázov para trás no canil e logo apegou-se em demasia à nova mamãe. Grande romancista russo, fundador do existencialismo e reverenciado até por Freud, dorme a qualquer momento, no colo ou mesmo no sofá.

Após um breve período de adaptação, o escritorzinho metido a ideias latiu, comeu, bebeu e até cagou na minha sala.

Boêmio como toda a dinastia russa da raça, embora sua origem puguiana remeta à China, lambe tudo o que vê pela frente, seja molhado em vodka ou não, e chora quando fica sozinho – é dramático e emotivo, vícios de qualquer escritor modernista.

Filosoficamente falando, postamos este para informar que mamãe, filhote e papai passam bem, sem Crime nem Castigo.

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A Casa

casa-estilizadaMINHA IRMÃ PEDIU-ME que a acompanhasse para ver a casa. Não precisou de me dizer qual nem onde, porque para nós só havia uma no mundo: a casa em que crescemos e fomos uma família completa pelo maior tempo possível.

A Casa ficava à Rua José Ricardo, onde meu pai tinha comprado um terreno e construído sozinho, com o suor do seu rosto e a destreza de suas mãos, o sobrado de dois andares dos sonhos de minha mãe.

Lembro-me de visitar as obras várias vezes na minha infância. Meu pai estava sempre lá, aos sábados e feriados – aos domingos, nos levava à igreja -, e trabalhara freneticamente na construção. Alguns amigos ajudaram, mas até hoje só consigo me recordar dele no terreno, gesticulando e apontando, com orgulho, onde ficaria cada cômodo da Casa.

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